GIRO DO MERCADO

O mercado cresce, mas o orçamento chega cansado

Profissional selecionando amostras de madeira e acabamento sobre uma bancada com planta e calculadora.

A indústria brasileira de móveis faturou R$ 92,1 bilhões em 2025, segundo a ABIMÓVEL. O número mostra a força do setor, mas existe um detalhe importante para quem trabalha com móveis planejados: muitas vezes, o cliente chega à marcenaria depois de acumular gastos e decisões de uma reforma.

Um estudo divulgado pela Revista Anamaco mostrou que 33,2% dos entrevistados pretendiam realizar alguma obra ou reforma em 2025. Banheiros e quartos apareciam entre os ambientes mais citados. Quando chega a hora dos planejados, esse consumidor ainda quer um bom resultado, mas já está mais atento ao orçamento, ao prazo e ao risco de escolher errado.

Os lançamentos recentes de Todeschini e Duratex apontam para identidade, tecnologia discreta e materiais com mais presença tátil. Para 2027, esses atributos terão mais força quando vierem acompanhados de uma explicação prática: o que melhora no uso, qual problema foi resolvido e por que aquela escolha merece prioridade dentro do orçamento.

Por que isso importa: minha leitura é que demanda continuará existindo, mas a disputa será pela prioridade do cliente. Quem apresentar apenas acabamento e catálogo corre o risco de parecer adiável. Quem mostrar utilidade, segurança e coerência ajuda o cliente a entender por que aquele projeto merece entrar agora.

TENDÊNCIAS & MATERIAIS

A régua mudou, o olho ainda é seu

Profissional analisando no computador uma comparação entre modelo de ambiente e render final de cozinha.

A inteligência artificial já entrou no setor moveleiro brasileiro. Um levantamento citado pelo Setor Moveleiro mostrou que 31,5% das empresas consultadas já haviam implementado aplicações em áreas como marketing, vendas ou produção. Outros 37% estavam em fase de testes ou estudos.

Na prática, o uso vai muito além da geração de imagens. A IA já pode ajudar a analisar o histórico de clientes, preparar abordagens comerciais, simular preço e margem, identificar medidas ou especificações fora do padrão, melhorar catálogos e organizar decisões tomadas em reuniões. Para arquitetos e designers, também acelera pesquisas, estudos conceituais, memoriais e apresentações.

O risco aparece quando cada profissional escolhe uma ferramenta e cria seu próprio processo. O CAU Brasil alerta que esse uso disperso pode gerar problemas de segurança, retrabalho, perda de padronização e conhecimento fragmentado. Também recomenda regras claras sobre proteção dos dados dos clientes, revisão humana e critérios mínimos de qualidade.

No Reino Unido, o RIBA registrou crescimento de 41% para 59% no uso de IA pelos escritórios pesquisados entre 2024 e 2025. O dado ajuda a dimensionar um movimento internacional, mas a realidade brasileira já oferece sinais suficientes para começar essa conversa por aqui.

Traduzindo: antes de escolher a ferramenta, defina qual problema ela precisa resolver, quais informações podem ser usadas e quem confere o resultado. A IA pode acelerar a produção. O olhar profissional continua decidindo o que faz sentido para o projeto, para o negócio e para o cliente.

GESTÃO, MARKETING & VENDAS

O custo que ficou fora da proposta

Mesa de projeto com amostras de madeira, planta, proposta impressa, celular e calculadora.

Cobrar abaixo do custo real é uma das razões pelas quais bons profissionais trabalham muito e ainda perdem margem. O motivo, na maioria das vezes, é reunião extra, mensagem fora de hora, revisão sem limite e retomada de etapa já aprovada entrando como "pequeno favor" gratuito. Somado, isso vira trabalho invisível que come a margem.

A Tabela de Honorários do CAU Brasil reúne mais de 240 atividades distintas, o que ajuda a visualizar quantas etapas existem por trás de uma entrega que o cliente enxerga só como planta ou render pronto.

Proposta de maior valor não se defende com "olha quantas horas eu trabalhei". Se defende com "olha o problema que eu resolvi, e o que teria custado errar isso".

Ação prática: na próxima proposta, deixe explícito quantas reuniões e rodadas de ajuste estão incluídas, e o que conta como mudança de escopo. Depois, troque a linha "X horas de projeto" por uma linha que descreva o resultado entregue.

GESTÃO, MARKETING & VENDAS | MATÉRIA DE ASSINATURA

Ambiente bonito e ambiente que vende seguem caminhos diferentes

Cozinha integrada de alto padrão com marcenaria em madeira, ilha em pedra e luz natural.

Essa frase organiza o que venho observando no trabalho com clientes de marcenaria, arquitetura e design, e resume o que o Leitura de Espaço existe pra fazer: ler o ambiente pela lente de quem vai decidir a compra, não só pela lente estética.

Existe até nome pra essa armadilha visual. O Nielsen Norman Group chama de efeito estética-usabilidade: a gente tende a achar que algo bonito também funciona bem, e relaxa o julgamento crítico por causa disso. Só que esse efeito estética-usabilidade tem limite. Ele não resiste a um problema grande de função ou de clareza, o que explica por que um projeto pode ganhar prêmio de design e ainda assim não converter visita em contrato.

A diferença geralmente está em detalhe que nada tem a ver com gosto: como o espaço é apresentado, em que momento da jornada o cliente vê o quê, que objeção aquele ambiente resolve antes mesmo de alguém perguntar. Em vez de dizer que a cozinha ficou "moderna e funcional", mostrar que a família precisava liberar a bancada e manter a circulação durante o preparo das refeições é o que transforma imagem bonita em raciocínio visível, e raciocínio visível em venda.

A proposta pras próximas edições é trazer estudo de caso real aplicando essa leitura em projeto de cliente (com autorização, claro). Se você trabalha com isso no dia a dia e quer trocar uma ideia sobre um caso seu, é só responder este e-mail.

CURADORIA DO DIA

Três recursos rápidos pra guardar:

Mesa de trabalho com notebook, tablet, moodboard, planta, amostras de materiais e calculadora.
  • Milanote: moodboard compartilhável com imagem, paleta e nota. Mantenha o painel curto e com direção clara, referência repetida cansa o olho do cliente antes mesmo da reunião.

  • BIMobject: biblioteca de objetos de fabricante pra SketchUp, Revit e Archicad, com medida e info técnica real. Ainda assim, confirme disponibilidade e instalação direto com o fabricante.

  • Calculadora de Honorários do CAU Brasil: serve de parâmetro pra revisar etapa e valor, mesmo se você usar metodologia própria de cobrança. Costuma revelar entrega esquecida na composição do preço.

QUEM SOMOS
Leitura de Espaço

O Leitura de Espaço é uma publicação da AB Simetria para quem trabalha com marcenaria, móveis planejados, arquitetura e design de interiores.

Em cada edição, selecionamos movimentos de mercado, processo criativo, gestão, vendas e percepção de valor que merecem atenção.

A ideia é oferecer uma leitura rápida, com fonte, contexto e aplicação prática para quem projeta, produz, especifica e vende.

Até a próxima leitura.

AB Simetria

Recebeu esta edição de alguém? Assine o Leitura de Espaço para receber as próximas leituras.

Recomendado para você

Ver todos
caret-right